Essa não é mais uma história de amor. Essa é a história de um cachorro calhorda, seduzido às duas e meia da manhã, com uma garrafa de uísque na mão e um cigarro na boca. Sem doçura, sem pieguice. Amor? Não tem amor. O cachorro não sabe amar. O vagabundo mal tem uma alma. É um tolo, um imbecil, um maldito solitário, encontrado na estrada, bêbado, às duas da manhã.
O relógio marca quatro zeros, e essa a hora em que tudo começa. Ossos fracos, tecidos dilacerados, pele seca, coração doente. Qualquer canto de sereia seduz. Qualquer rabo de saia o desmonta. Não há compaixão. Não há um pingo de orgulho. Não há amor próprio. Alma de mendigo. Coração de coelho, de elefante, de leão.
O fato é que, o indivíduo era fraco demais, e sereias não são belas criaturas. Não se pode confiar em sereias. Elas não prestam. O longo e belo cabelo negro caindo sobre a boca cor de sangue da sereia era tentador demais. Seus olhos azuis, hipnotizantes. Era incrível a facilidade com que essa bela criatura conseguia escravizar o pobre mendigo. O pobre vagabundo, coitado, enfeitiçado. E por tão, tão pouco…
O preço que se paga por ser um miserável sentimental é caro demais. E maior ainda é a quantidade de sangue que bebe-se de si mesmo por sentir tanto. Se rasgar por dentro como quem rasga uma folha de papel, caro leitor, não é nada fácil também. E as olheiras: ter olheiras permanentes por generosidade ou por ter a alma reduzida a uma espécie de pasta espiritual, é nobre demais. Mas é tolo demais. É suicídio barato, e aos poucos.
Isso mata, sempre disseram pro calhorda, esse jeito fácil de ser conquistado e essa mania imbecil de enfiar cachaça goela abaixo iriam acabar matando esse dilacerado imbecil. O ser humano bebe pra esquecer, pra comemorar ou pra simplesmente celebrar, mas não este. Este bebia pra se ver no fundo do poço. Pra ter a pele rachada. Pra ser, de fato, fraco. E esse foi seu grande erro: vulnerabilidade diante de sereias. Ainda mais pra quem se derretia por apenas um rabo de saia mais bem arrumado. Sereias são criaturas ruins, perversas, cruéis.
O final? Não tem final. É sempre assim, morrer de amores por uma sereia nova a cada dia. E morrer um pouco dentro de si a cada noite. E corroer um pouco mais a alma a cada gole. Essa é a história de um cachorro e seu fardo: ter uma merda de alma prostituta. E dizem que não tem como fugir da nossa própria história. No caso, a minha história. A minha alma.
Posted on Dec 27th (9:57pm), 5 months ago— Caio Fernando Abreu (via flores-de-dentro)
— Mário Quintana (via flores-de-dentro)
— Letícia Loureiro (via abrupto)
— A Menina Que Roubava Livros. (via infinito-particular)
- Mas nós não anotamos as flores, disse o geógrafo.
- Por que não? É o mais bonito!
- Porque as flores são efêmeras.
- Que quer dizer “efêmera”?
- Quer dizer “ameaçada de desaparecer brevemente”.
- Minha flor estará ameaçada de desaparecer brevemente?
- Sem dúvida.
- Minha flor é efêmera, - disse o príncipezinho, - e não tem mais que quatro espinhos para defender-se do mundo! E eu a deixei sozinha!
Foi seu primeiro movimento de remorso.
— O Pequeno Príncipe (via capitulices)