Nunca mais, amor.
Ana Flávia, 17 anos, RS.
A História de Uma Alma Prostituta

     Essa não é mais uma história de amor. Essa é a história de um cachorro calhorda, seduzido às duas e meia da manhã, com uma garrafa de uísque na mão e um cigarro na boca. Sem doçura, sem pieguice. Amor? Não tem amor. O cachorro não sabe amar. O vagabundo mal tem uma alma. É um tolo, um imbecil, um maldito solitário, encontrado na estrada, bêbado, às duas da manhã. 

     O relógio marca quatro zeros, e essa a hora em que tudo começa. Ossos fracos, tecidos dilacerados, pele seca, coração doente. Qualquer canto de sereia seduz. Qualquer rabo de saia o desmonta. Não há compaixão. Não há um pingo de orgulho. Não há amor próprio. Alma de mendigo. Coração de coelho, de elefante, de leão. 

     O fato é que, o indivíduo era fraco demais, e sereias não são belas criaturas. Não se pode confiar em sereias. Elas não prestam. O longo e belo cabelo negro caindo sobre a boca cor de sangue da sereia era tentador demais. Seus olhos azuis, hipnotizantes. Era incrível a facilidade com que essa bela criatura conseguia escravizar o pobre mendigo. O pobre vagabundo, coitado, enfeitiçado. E por tão, tão pouco…

     O preço que se paga por ser um miserável sentimental é caro demais. E maior ainda é a quantidade de sangue que bebe-se de si mesmo por sentir tanto. Se rasgar por dentro como quem rasga uma folha de papel, caro leitor, não é nada fácil também. E as olheiras: ter olheiras permanentes por generosidade ou por ter a alma reduzida a uma espécie de pasta espiritual, é nobre demais. Mas é tolo demais. É suicídio barato, e aos poucos. 

     Isso mata, sempre disseram pro calhorda, esse jeito fácil de ser conquistado e essa mania imbecil de enfiar cachaça goela abaixo iriam acabar matando esse dilacerado imbecil. O ser humano bebe pra esquecer, pra comemorar ou pra simplesmente celebrar, mas não este. Este bebia pra se ver no fundo do poço. Pra ter a pele rachada. Pra ser, de fato, fraco. E esse foi seu grande erro: vulnerabilidade diante de sereias. Ainda mais pra quem se derretia por apenas um rabo de saia mais bem arrumado. Sereias são criaturas ruins, perversas, cruéis. 

     O final? Não tem final. É sempre assim, morrer de amores por uma sereia nova a cada dia. E morrer um pouco dentro de si a cada noite. E corroer um pouco mais a alma a cada gole. Essa é a história de um cachorro e seu fardo: ter uma merda de alma prostituta. E dizem que não tem como fugir da nossa própria história. No caso, a minha história. A minha alma.

— João Amaral

Posted on Dec 27th (9:57pm), 5 months ago
Feito febre, baixava às vezes nele aquela sensação de que nada daria jamais certo, que todos os esforços seriam para sempre inúteis, e coisa nenhuma de alguma forma se modificaria.Mais que sensação, densa certeza viscosa impedindo qualquer movimento em direção à luz.E além da certeza, a premonição de um futuro onde não haveria o menor esboço de uma espécie qualquer não sabia se de esperança, fé, alegria, mas certamente qualquer coisa assim. Eram dias parados, aqueles. Por mais que se movimentasse em gestos cotidianos - acordar, comer, caminhar, dormir, dentro dele algo permanecia imóvel.

— Caio Fernando Abreu (via flores-de-dentro)

Posted on Dec 23rd (10:16am), 5 months ago
A vida não é um jogo onde só quem testa seus limites é que leva o prêmio. Não sejamos vítimas ingênuas desta tal competitividade. Se a meta está alta demais, reduza-a. Se você não está de acordo com as regras, demita-se. Invente seu próprio jogo. Faça o que for necessário para ser feliz. Mas não se esqueça que a felicidade é um sentimento simples, você pode encontrá-la e deixá-la ir embora por não perceber sua simplicidade.

— Mário Quintana (via flores-de-dentro)

Posted on Dec 23rd (10:16am), 5 months ago
Me sinto vazia. Hoje os olhos doem e a alma chora, mas nem sequer as lágrimas são capazes de fazer-me companhia. Tudo dói em mim. O simples fato de existir, me dói, pois penso que não vale a pena viver assim, como lixo, entulho, resto descartável que espera poder ser reciclado e, por algum motivo, passar a ter alguma função. Me sinto estranha e dolorida. E dolorosa. Como a alma daqueles que sentem muito, mas na verdade não sentem nada - e é esse todo o problema. Essas complexidades e contrariedades que fazem o cenho se franzir. Me sinto estranha, me sinto mal, me sinto abandonada e solitária como folhas que dançam através da energia que traz o vento, mas que sentem faltam de uma boa companhia. Meu rosto é extremamente sério, e acho que tremo um pouco. Tenho medo do escuro e me preocupo com besteiras. Sou ingênua, sempre acredito no que todo mundo fala. Hoje percebo que não deveria. E dói muito te observar de longe e ver que nem sequer sinto sua falta, e dói muito pensar que te usei como um remédio contra a solidão, como um antídoto para as dores, e perceber que você não foi o suficiente. E, por fim, dói demais me olhar no espelho, grande demais, doída demais, e tão chorosa por dentro, e perceber que jamais fui o suficiente para mim mesma.

Letícia Loureiro  (via abrupto)

Posted on Dec 23rd (10:14am), 5 months ago
No começo, Liesel não conseguiu dizer nada. Talvez fosse a súbita turbulência do amor que sentiu por ele. Ou será que sempre o tinha amado? Era provável. Impedida como estava de falar, desejou que ele a beijasse. Quis que ele arrastasse sua mão e a puxasse para si. Não importava onde a beijasse. Na boca, no pescoço, na face. Sua pele estava vazia para o beijo, esperando.

— A Menina Que Roubava Livros. (via infinito-particular)

Posted on Dec 23rd (10:14am), 5 months ago
- Tenho também uma flor.
- Mas nós não anotamos as flores, disse o geógrafo.
- Por que não? É o mais bonito!
- Porque as flores são efêmeras.
- Que quer dizer “efêmera”?
- Quer dizer “ameaçada de desaparecer brevemente”.
- Minha flor estará ameaçada de desaparecer brevemente?
- Sem dúvida.
- Minha flor é efêmera, - disse o príncipezinho, - e não tem mais que quatro espinhos para defender-se do mundo! E eu a deixei sozinha!
Foi seu primeiro movimento de remorso.

O Pequeno Príncipe (via capitulices)

Posted on Dec 23rd (10:13am), 5 months ago
/ before